Morre
Roberto Civita
Jairo
Fernando 06.06.2013
Minha opinião é que Roberto Civita
criou um Legado de Liberdade de Expressão e Educação, de uma imprensa
independente, empreendedorismo tolerante e sempre aberto para diálogos, ouvia e
no Paradoxo ou Paradoxos que criava após ouvir, expressava seu ponto de vista
após uma seleção dos temas abordados como mais marcantes. Empreendedor nato,
dono de uma valorosa cultura e possuidor da “curiosidade do olhar felino”, ou
seja, aquele que busca conhecimento respeitando princípios éticos e morais
inovando e renovando, dai o olhar felino. Sempre com um sorriso no rosto e com
seu olhar para o horizonte, horizonte esse creio que influenciado para quem
teve a oportunidade de vê-lo atuando, a sua inesquecível caderneta de bolso
onde anotava justamente os Paradoxos considerados mais importantes para as suas
reportagens...
Uma pergunta marcante e que não pode
ser descartada é “Como você consegue ser ao mesmo tempo editor e empresário?”
Roberto com certeza ouviu muito e talvez era a pergunta a qual mais gostava de
responder. Roberto Civita, em toda a humildade, afirmava que não desempenhava
ao mesmo tempo as duas funções. Quando adentrava na redação da Veja para
reuniões era editor e que quando pisava fora da redação era o empresário. Fora
da Veja era chamado de RC, dentro desta preferia ser chamado de “Doutor” antes
do nome.
Roberto Civita veio a óbito domingo 26
de maio de 2013 em São Paulo, com 76 anos pouco antes do 45º aniversário da
revista Veja. Nas Correntezas da Vida, Roberto pereceu devido complicações do
implante de uma prótese para corrigir um aneurisma da aorta.
Não era bom em memorizar datas, mas
apaixonado por coincidências. Coincidência que vale ser destacado nesse
contexto o nome de Henry Luce, talvez o maior editor de revistas dos EUA que
Roberto Civita admirava e muito as qualidades de jornalista e que também veio a
falecer no 44º aniversário da revista Time. Um costume de Roberto era discutir
o encaminhamento das principais matérias da Veja, mas nunca lia uma reportagem
antes da mesma ser publicada.
Roberto Civita foi um homem movido por
princípios. Alguns aprendidos com o pai Victor Civita, outros de preceitos de
jornalistas, pensadores, poetas e escritores. Destaque para “A democracia não é
o melhor sistema político que existe, apenas é melhor do que todos os outros. É
um empreendimento moral e espiritual cuja base material é o livre mercado e o
seu corolário, a liberdade de expressão” e o aprendido com o pai Victor Civita:
“Nunca faça parcerias com 50% para cada lado. Como muitos casamentos provam, isso
não dá certo”.
Recebera muitas mensagens de grandes
nomes de nossa Pátria onde podem ser citados alguns de grande destaque: A
Presidente Dilma Rousseff, o Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, Carlos
Ayres Britto – Ex-Presidente do STF, Edison Lobão – ministro de Minas e
Energia, Marcus Vinícius Furtado – Presidente Nacional da OAB, Michel Temer –
Vice-Presidente da República, Francisco Dornelles – Senador, Abílio Diniz –
Empresário, Fernando Gabeira – jornalista e Ex-Deputado Federal, o Prefeito e o
Governador do Estado do Rio de Janeiro – respectivamente Eduardo Paes e Sérgio
Cabral, José Sarney – Ex-Presidente e Senador, o Senador Pedro Simon, Senador
Aécio Neves, Renan Calheiros – Presidente do Senado Federal, Henrique Eduardo
Alves – Presidente da Câmara de Deputados, Ann Moore – Presidente da Time,
Roberto Irineu Marinho – Presidente das Organizações Globo, uma homenagem
cartunesca de Maurício de Sousa, Luís Frias – Presidente do Grupo Folha, Jô
Soares e Luciano Huck – Apresentadores de TV, a Atriz Regina Duarte e Gleise
Hoffmann – Ministra-Chefe da Casa Civil.
Se Roberto pudesse dizer como as
pessoas o enxergavam certamente diria: “Fascinante!” Roberto Civita tinha
ciência do que representava para a Sociedade. Se houvesse perguntas a serem feitas
e pessoas para responder, iria retirar a sua caderneta e anotar os Paradoxos
para reportagens, conceitos, números ou frases, mas tudo o que fosse necessário
para a realização de uma matéria. Afirmava que adquiriu tal hábito devido à
memória falível. De tempos em tempos entregava para suas secretárias a
caderneta que passavam todo o conteúdo de uma caligrafia rebuscada, mas muito
bem legível, pela regularidade para um programa de computador feito
especialmente para ele. Valorosas fichas de homens do seu tempo encontram-se
armazenadas em seu computador. Devido a determinação de Roberto, as suas notas
não são simples encontros registrados por ele, mas algo vivo o qual demonstra
que as pessoas mudam e vivem de acordo com seu tempo.
Em uma das raríssimas ocasiões onde
Roberto permitiu que o seu otimismo desse lugar a um contido desprezo ao
próximo dizia que “A espécie humana nunca decepciona”. Talvez devido a sua
preferência Machadiana, por Machado de Assis ser seu escritor favorito, ainda
era expresso de uma forma teatral, distante, algo que como falar mal ou duvidar
de alguém fosse uma atitude esperada de um homem na posição dele. Para
reacender a chama do espírito de crítica de jornalistas utilizava um ditado
muito comum na cultura Italiana: “Fidarse è bene, ma non fularsi è meglio”,
traduzindo ao pé da letra pelo que eu conheço do Idioma Italiano a tradução é:
“Confiar é bom, mas o melhor é não confiar”. Roberto era um homem que
acreditava no que contavam a ele, até que fosse provado o contrário.
Segundo profissionais que trabalharam
com Roberto, quanto maior e mais complicada fosse à crise, melhor de se
trabalhar com ele isso por que Roberto elevava-se nos momentos difíceis. Nesses
momentos mantinha-se calmo, mais concentrado e mais focado. Só exigia uma coisa
dos editores da Veja, que trabalhassem honestamente, expressassem sempre a
verdade. Em momento algum demonstrou pretenções de que a atividade jornalística
viesse a substituir instituições. Assim como Philip Graham, o editor que
tornou-se uma lenda no Washington Post, contentava-se que mas páginas da
revista tivessem registradas com a máxima qualidade possível um rascunho da
história. Em ocasiões onde existiu um dilema confrontando o que fora escrito na
Veja, ou na versão de um “poderoso” que tentasse desmentir a revista, Roberto
sempre manifestou-se de estar correto, isso devido a confiança no processo de
apuração, na cultura de verificar e obter provas concretas de que ele e sua
equipe estavam corretos em cada afirmação desenvolvida pela redação, por isso
nunca duvidou dos resultados de sua equipe.
Roberto afirmava que “Os jornalistas
não levam nenhuma vantagem em mentir. Isso acaba logo ou abrevia a carreira
deles. Já os políticos são treinados para mentir, isso é natural e aceito como
um meio de evoluir no negócio deles”. “Então existe sempre a probabilidade de
que um jornalista nosso, bem selecionado, bem treinado e bem pago, esteja com a
maior parte da verdade”. Roberto teve conversas muito difíceis contra aqueles
que se sentiam atingidos pelas reportagens em suas revistas. Nesse meio de
“considerados atingidos” encontravam-se artistas famosos, empresários e
políticos. Sempre perguntava se o que ele e sua equipe escreviam era verdade.
Era como um compromisso de ouvir os dois lados, analisando as duas faces da
moeda. Algo que ficou caracterizado em sua história como o seu maior legado.
Dizia sempre para escreverem a verdade,
narrando os fatos. Segundo Roberto, “Aos críticos nunca é demais repetir que
não criamos os fatos, não inventamos a natureza humana, não somos deuses com o
poder de alterar o curso dos acontecimentos”. Um dos legados da Veja são os
fatos serem revelados pelos seus jornalistas com o compromisso da verdade. É
como um desenho, sem a arte-final, a ideia visualizada nos confins da imaginação
não passa de rabiscos.
Quanto
aos males da imprensa, Roberto os visualizava como manifestações do que existe
de pior no mundo. Roberto afirmava: “Os males a evitar na imprensa são a
imprecisão, a arrogância, a parcialidade, o desprezo pela privacidade, à
insensibilidade, a glorificação do bizarro, trivial e banal”. Esse Paradoxo não
era para tornar a revista em um boletim informativo, ou livros de auto-ajuda
ricos em mensagens positivas e com exemplos de vida a serem seguidos, ou pior
um manual de ajuda para auto-estima e sobrevivência. Esse jamais foi o
pensamento de Roberto. Roberto visualizava além, “assunto sério é assunto
tratado de maneira séria”. Algo com a menor probabilidade e que possa parecer
mais absurdo possui potencial jornalístico se existir gente interessada nele e
se o jornalista for capaz de despertar o interesse e a curiosidade
surpreendendo o esperado e garantindo assim uma audiência.
Em questões comerciais seria o mesmo
que atender a um determinado nicho de mercado. Vamos pegar como exemplo o
seguinte Paradoxo: muitos conservadores gostam de ouvir discos de vinil como
forma de trazer lembranças da época em que determinado álbum tenha sido
lançado. Aprofundando mais no assunto vamos pegar um exemplo histórico na
música mundial, mais precisamente no 1º álbum da Banda Led Zeppelin que traz em
sua capa um acidente ocorrido em 06.05.1937 onde o LZ129 Hindenburg, o
inesquecível dirigível vítima de um acidente que enquanto se preparava para
aterrissar começou a pegar fogo. Cerca de 97 pessoas se encontravam no
dirigível, sendo 36 passageiros e 61 membros da equipe. O dirigível havia saído
de Frankfurt na Alemanha e se preparava para aterrissar na Estação Aérea-Naval
de Lakehurst, New Jersey, Estados Unidos. No total 35 pessoas faleceram sendo
13 passageiros e 22 membros da equipe, além de um trabalhador que se preparava
para receber a todos no solo. Tal fato histórico teve o seu jornalismo na
devida época, mas quando a Banda Led Zeppelin lançou o álbum com tal capa, houve gente interessada e com a devida
curiosidade para saber o significado de tal capa. Existiu naquele momento
um potencial jornalístico surgiu para saber o motivo da capa. Encaixa-se
perfeitamente nas visões de Roberto inclusive onde o maior desafio para o
jornalista é tornar tal fato interessante.
Segundo Roberto “alguém capaz de
explicar e manter a atenção do leitor em assuntos árduos como o Orçamento do
país ou o ciclo da malária é alguém que tem valor inestimável”.
Se houve algo que surpreendeu Roberto
pegando-o de surpresa foi a Revolução Digital. Roberto não aceitava a mudança
de como a informação transmitida pode ter alteração em sua percepção de valor.
Para Roberto “na era da informação não podemos deixar de lado a fundamental
importância da verdade, da honestidade, da objetividade, da solidariedade”.
Para Roberto esses são os pilares básicos da civilização. Eles nos trouxeram
até aqui. Não existiria o menor sentido se fossem abandonados justamente em um
momento de evolução da humanidade.
Roberto ficava inconformado de que nenhuma das grandes
editoras estrangeiras, principalmente as que admirava e possuía contato e
dialogo constante com seus líderes tivessem encontrado um modelo de negócio
sustentável para transpor revistas para a internet. Com a popularização dos Tablets,
veio à ideia. Levar a Veja para os Tablets. O sucesso foi estrondoso. Mas para
Roberto talvez não houvesse mais respostas para a altura dos desafios que sua
carreira editorial apresentava. Algo inédito em sua vida de conquistas e de
transformação do impossível em realidade. Dizia para os amigos de que “o
desafio digital era coisa para seus filhos”. Mas como todo guerreiro treinava
com o objetivo de encontrar uma solução através de estudos, contratando
consultorias e conversando com especialistas. Um homem que nunca desistiu. Que
ensinou para os compatriotas que o erro é apenas um acidente de percurso para
gerar experiência suficiente para continuar no caminho certo. Quando errar,
erre melhor na próxima vez. Para Roberto a democracia é uma conquista mas que
necessita de manutenção. Os seus Paradoxos de Liberdade de Expressão e Educação
devem caminhar juntos ajudando uns aos outros. Esse foi o Roberto Civita que
conheci, infelizmente não pessoalmente mas na caminhada de minha vida...
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